No final de 2014, uma performance ocorrida na entrada da Escola
Superior de Artes e Turismo gerou uma grande polêmica. A reitoria da
Universidade do Estado do Amazonas fora diretamente envolvida, e os professores
do curso de teatro, convidados a prestar esclarecimentos. O curso se reuniu
para a leitura de uma carta de repúdio à intolerância estética, os alunos e
professores debateram sobre o tema, e até aquele momento, tudo acalmara-se –
apesar de continuar as linhas burocráticas e processuais.
Pouco tempo depois, um professor de outro curso inicia uma séria discussão durante a aula de uma das professoras do curso de Teatro. O tema da
aula: teatro político. Não passou de gritaria nos corredores, e por algum tempo
durou em boatos, ameaças de processos, boletim de ocorrência por uma “agressão”,
e esquecido depois, também ficou.
Na sequência, com tempo suficiente para que o evento anterior fosse
esquecido, e outro docente do curso de Teatro recebe uma intimação: um
processo fora instaurado contra ele, alegando diversas acusações
contraditórias (em uma parte do processo, é chamado de homofóbico, noutra, afirma que obrigou
alunos do mesmo sexo a se beijarem). Viu-se obrigado a prestar esclarecimentos e presenciar
uma sequência sórdida de depoimentos contra a sua pessoa, em silêncio. Sete alunos
assinaram o processo. Muitos outros ficaram neutros, por terem seus
ressentimentos com o professor “exigente”, como se pontualidade e disciplina
fossem males a serem evitados, enquanto um grande grupo militou a permanência e
a defesa do professor em questão. Resultado: paira no ar a possibilidade de que professor possa ir embora da cidade, e Manaus possa perder um excelente profissional.
Recentemente, uma intervenção cênica realizada por alunos do curso de
teatro, que consiste em atores interpretando prostitutas seminuas (como a que
estamos acostumados a presenciar pelas obscuras avenidas da cidade de Manaus),
fora rechaçada por um docente de outro curso. A polícia fora chamada, pois a
intervenção configuraria “ato obsceno”, ou algum tipo de atentado à moral e
bons costumes qualquer. O fato está em andamento, e os alunos do curso de teatro,
chocados, debatem: como reagir a atos de censura (de novo, porque isso foi
feito no primeiro fato supracitado, lembram)?
Vivemos tempos de intolerância. Somos de direita coxinha ou esquerda
caviar petralha. Somos defensores da fé, ou guerreiros da liberdade LGBT. Somos
alunos da UEA, ou somos Dinossauros. Nestes casos citados, existe também um jogo
de extremismos e intolerância.
A intolerância estética possui seus extremos. Presenciamos dois
tipos de intolerantes: o Ignorante e o Militante. O Ignorante é aquele que, por
desconhecer, por não estar acostumado, não consegue imaginar as possibilidades estéticas
da Arte e, portanto, possui um senso estético com determinadas atrofias – e
tais atrofias surgem tão somente porque tiveram uma deficiente formação em Arte
no seu ensino básico, fundamental e médio, ou na educação familiar. O ignorante
pouco reage à Arte, pois se gosta, contenta-se, e se não gosta critica aqui e
ali, encontra algum rótulo para pendurar naquilo que aprecia (maluquice,
sem-vergonhice, chato, etc.). O mundo, para ele, divide-se entre aquilo que ele
gosta e aquilo que não gosta. Reage, mas só se muito incomodado em sua rotina,
em seus territórios cotidianos. Ao intolerante estético que sofre de
ignorância, há um bom remédio: diálogo, paciência, dedicação, experimentação, oportunidade
de conhecer a Arte.
Mas há também o intolerante militante. Este, talvez, não tenha uma
formação estética tão deficiente assim. Mas defende o que é Arte com unhas e
dentes. Suas críticas, algumas vezes é fundada, mas embasadas no seu desejo por
denegrir aquilo que é diferente do que ele considera Arte. Suas ideologias
influenciam a decisão entre o carimbo da boa arte, e da obscenidade. Dificilmente
contextualizam a obra que apreciam. Colocam-na em caixinhas. Verificam minuciosamente
se elas acatam às suas condições de boa arte, como se arte fosse um produto
industrial que deva atender à pré-requisitos estabelecidos. O intolerante militante
é sempre a vanguarda do conservadorismo, que vira e mexe ataca novas propostas
estéticas.
Mas há, entre o Ignorante e o Militante, o pior de todos: o Intolerante
que é ignorante e militante. A ele falta-lhe tudo o que falta ao Ignorante. Mas
é irremediável, pois milita a sua intolerância ignorantemente. Ao contrário do que só é
militante, é quase que incapaz de debater criticamente. Mas assume posições
radicais. Instaura processos, invade aulas com gritarias, dissemina mentiras, chama a polícia -
como se coubesse à polícia censurar a Arte. Não adianta explicar-lhes o que é
diversidade estética, nem esmiuçar a proposta, o contexto, os signos, a
simbologia por detrás da obra. Transforma o que poderia ser um belo debate
estético e uma dicotomia entre certo e errado, quando na Arte, a última coisa
que contemporaneamente se deseja, é apontar certo e errado – mas propor
reflexões sobre o que poderia ser estas duas coisas entre tantas outras. Como fazedores de Arte, de
Teatro, precisamos nos atentar aos Intolerantes. Paciência e didática aos que
precisam de paciência e didática. Argumento e embasamento aos que militam um
conservadorismo na Arte. E militância e resistência àqueles que querem fazer
imperar o obscurantismo, pois é isto o que lhes interessa, e é isto que jamais podemos aceitar.
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Iago Lunière - curioso que só a peste, gasta boa parte do tempo pesquisando abobrinhas e observando meio mundo com um fascínio sobre aquilo percebe. Tem dois cães e um CPF.
Adorei, fascina-me suas observações 👏🏽👏🏽👏🏽
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