domingo, 14 de setembro de 2014

Isso é não amor, sou eu!

"Não. Eu não te amo. Eu te desejo como propriedade! E te quero como meu, de mais ninguém e a mais alguém além de mim que mora aqui... Aqui dentro... Isento, carnívoro, desejoso, estrondoso...

Frio...

Vazio...

De relance te olho, desejando consumir cada parte do seu corpo, pés, mãos, barriga, carne, e osso. Querendo sentir teu prazer, e mais ainda poder ser aquilo que gostaria de ti: que me tornes inteiro... Que me tornes preenchido!

E com o que? Com quem? Não sei, talvez você ou alguém...

E inutilmente olho em volta e esqueço de mim. De que isso sou eu, e mim, e só.

Me esvaio. E oco, eu murcho. Sem ossos que me sustentem, sem fibras que constituam meus músculos. Murcho, e viro água. E me despejo ao ralo, me esparramo no chão, me faço lama e sujo tua mão, mancho tua alma  tal qual a minha é manchada, destroçada, deslocada, rebelada contra mim!

E eu ainda em ousadia te peço... Peço em suplicas que acaricie meu ego. Me desespero, me desarranjo, me desconstruo e me afogo nessa solidão... Me tornando plenamente inconsciente de mim, de minha razão, de minha culpa em acreditar que és tu do meu sentimento o ladrão!

NÃO!

Sou eu!

E eu te culpabilizo por me destruir, te responsabilizo por me reconstruir, me reerguer, me constranger com um olhar que me reprove e ao mesmo tempo me contemple sem julgamento ou indiferença!

Não, eu não te amo! Nem eu me amo, e ainda assim te obrigo a crer naquilo que igualmente me obriguei: que a culpa é tua! É tua a culpa do meu choro, do meu lamento, e há quem diga sem nenhum tormento de que isto é amor...

Não! Isso jamais será amor!

Isso sou eu!

Eu!

Sou eu, aqui, te pondo no que deveria ser minha função... me amar!

E te convido para morar em mim, nessa casa vazia, inteiramente à revelia daquilo que vi em ti. E o que vi em ti é o que veria em qualquer outro, um desbotado e intenso consolo, a quem ofereceria impiedosa tarefa, a de heroicamente tornar-se aquilo que me completa, fazendo de mim inteiro.

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