Maquiavel, em sua obra "O Príncipe", aborda sobre como deve proceder um bom líder de estado. A este, ele chama de Príncipe, não interessando se seu estado é uma república democrática, ou uma monarquia absolutista - estadista, portanto, é aquele que lidera um estado [PONTO]. Em vistas maiores, falamos de um líder, ou seja, daquele que busca uma visão panorâmica do todo a fim de coordenar um grupo em relação ao seu meio ambiente (incluindo outros grupos, e outros ambientes). Em teatro, portanto, o Diretor é pode ser considerado esse líder. Não importa a filosofia daquele grupo, ou a metodologia que este optara, ou o(s) ambiente(s) em que se situa, o Diretor de Teatro é o tal Príncipe.
Há pouco mais de meia décadas, era de se observar uma lógica teatral na cidade: existia um mestre, ao eu podia me aliar, e das duas, uma: morro com ele, ou me alio a outro mestre - não de forma aleatória, mas sistemática. Traição, portanto. E não julgo o mestre que considera essa opinião sobre aquele pupilo que desertara. Deserção é traição, não importa o motivo.
Ocorreu que vislumbramos uma transição de tal lógica. Fundou-se uma Universidade e, antes dela, havia-se formado um germe, que era o Liceu de Artes Cláudio Santoro ("era", pois sua mecânica aparentemente é diferente daquela de mais de dez anos atrás). A Lógica portanto era a de que havia um centro de formação sem mestres, sem uma configuração ética de como funcionaria tal ensino e formação. O objetivo era claro: formar novos atores. Sabia-se do que precisavam: um centro de formação. Sabiam como precisavam fazer: formando turmas e ensinando progressivamente o básico para se tornar ator. Mas a ética de tal procedimento, não fora estabelecido. Os diretores ou aqueles que faziam teatro antes do Liceu, tornaram-se mestres. Daí a nova lógica. Ali, os diretores de teatro viram uma fonte para recrutar novos talentos às suas fileiras de elenco. A formação que davam aos alunos fora influenciada pela corrida violenta por adquirir "novos talentos" aos seus grupos. Potenciais talentos foram formados sob uma cultura de "alie-se a mim e conheça a glória, ou alie-se àquele, e torne-se um pária". Mas com quem me torno pária e com quem me torno glorioso? Não se sabia. Ia e descobria. As grandes queixas que se tinha (ou ainda tem) sobre essa lógica canibal, é porque a ética não fora pré-estabelecida enquanto havia tempo. Se há pouco menos de quatro anos nos queixávamos sobre a ética do Festival de Teatro da Amazônia, ou sobre a ética dos atores em grupos de Teatro, deve justamente à esta lógica nascida do Liceu. Por fim, concluiu-se como tal ética deveria ter sido, mas já era tarde demais. Uma lógica canibal havia sido estabelecida.
A Universidade, entre outras coisas, foi a segunda tentativa, com vistas à esta ética. Pensou-se sobre como seria sua ética, e a adotaram. Os mestres até podiam adotar os alunos como pupilos, mas aos pupilos era ofertada a chance de refletir quais caminhos eram/são existentes. Uma segunda lógica portanto nasce. Eu, como estudante de Teatro, preciso conhecer os caminhos para só então, pela experiência, trilhar por eles. Claro, já havia a tradição de atores que trilhavam de Companhia em Companhia, fazendo uma montagem aqui e ali, descobrindo os métodos, procedimentos e processos de cada diretor, mas é com a busca de experiências (aleatória, ou seja, "não importa o quê, vamos experimentar"), é que nasce um ator declaradamente mercenário. Chamo de mercenário, não num sentido pejorativo. Mas num sentido em que, um mercenário, é aquele que não tem raízes em um grupo ou bandeira, e possui a liberdade de lutar por aquele que lhe oferece chances melhores de crescimento enquanto individuo. No teatro, um mercenário é portanto aquele que não deve lealdade à Um mestre ou Uma Companhia, mas àquele que lhe dá chances de obter lucros de experiência.
Creio que essa é uma fase transitória. Uma hora, esses mercenários encontrarão (ou já estão encontrando) seus caminhos, e portanto, trilharão (ou já estão trilhando) sobre eles. Já desenham suas próprias bandeiras, e criam suas próprias Companhias. E sobre o termo "companhia", quero me aprofundar.
Companhia, presume-se um coletivo de pessoas primorosamente organizadas, e este termo também usado entre os militares, e estes bem sabem: à deserção e motim, não há misericórdia - a pena é a morte! O diretor de teatro, ou seja, o Príncipe, não pode parar no caminho do objetivo para diálogos e barganha, pois um membro que vacila é um peso que mais atrapalha do que contribui. Quer desertar? Deserte morto! Querem motim? Busquem outro objetivo. Parar para barganhar benefícios numa determinada jornada, é perder tempo para, mais tarde, descobrir que o fracasso é tão real quanto o encerramento consciente da missão proposta. Como Príncipe, o Diretor de Teatro lida com a deserção de forma rápida e concreta. E para evitá-la, tem por opção: contratar mercenários, ou se tornar amado ao ponto de ser seguido. Maquiavel alerta aos príncipes sobre os mercenários: facilmente estes o traem em busca de ganhos maiores. Facilmente lhe abandonam, quando a crise se instala. E facilmente estão ao seu lado, se você é vitorioso, sugando seus lucros de tal vitória.
O Diretor tirano, dificilmente conquista o amor dos seus atores, podendo quem sabe conquistar o respeito, mas não o amor. Se é tirano, é portanto impositor. Se é impositor, é porque suas idéias não encontra ecos naquele grupo, nem as idéias do grupo encontra ecos em si. Portanto, ou contrata mercenários que desejam aprender consigo sua ideia, ou perde tempo tentando conseguir voluntários dispostos. Um diretor amado - mesmo na crise, ou nas dificuldades inciais do caminho daquele grupo - assim o é porque marcha junto com suas fileiras, assumindo para si tanto as decisões fáceis quanto as difíceis, e delegando ao seu grupo a mesma oportunidade. Em outro ponto, não nega aos seus atores a oportunidade de enriquecerem suas experiências. Ao contrário. Incentiva-os a testarem novas linguagens, métodos, experiencias. Reflete com seus atores, com outros diretores, com outros grupos. Um ator que percebe que aquele grupo pode lhe proporcionar essas buscas, prefere nele se estabelecer, ao invés de fazê-las em cada grupo, de cada vez. Logo, o grupo ganha forças de sobrevivência, e portanto dura, pois este é seu sucesso. Tal sucesso não se mede pelo alcance de um objetivo, mas pelo seu tempo de duração. Assim foi o Irish Republican Army (I.R.A), que durou 86 anos, e até hoje seus ideais são lembrados, em detrimento ao Movimento de Libertação Popular (Molipo), que lutou contra a Ditadura Militar Brasileira no século XX e caiu no esquecimento pouco tempo depois de desmantelado.
O Diretor amado, talvez nunca encare suas fileiras prestes a amotinar-se ou desertar. Estes são sintomas da inanição ou tirania. Há de se deparar, talvez, com a anarquia, mas dela pode prever oportunidade de mudança. Poderá encontrar-se diante de indivíduos que vacilam, mas por motivos alheios ao grupo, que logo o ajudam a superar tais problemas para manter-se firme. Percebe-se, que um diretor amado logo perde sua identidade individual, e sua obra se torna coletiva, e de fato, uma Companhia se estabelece - não importando quem a dirige, ou quem nela atua. O Grupo, portanto, sobrevive.
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